A Arte da
Cooperação
Christian Rocha
Você treina, treina,
treina. Torna-se habilidoso em técnicas de combate. Ganha agilidade,
flexibilidade e capacidade de concentração. Depois de anos
treinando arte marcial, você é invejado por seus colegas
-- você já os derrotou nos treinos, embora o clima amistoso
sugerisse outros modos de interagir. Mas então surge o dia em que
seu sensei decide que você irá participar de uma competição.
Algo simples, um encontro entre lutadores de várias cidades da
região. Não há com que se preocupar, ele diz. Você
se dedicou por muito tempo à sua arte e, de fato, não há
razões para você duvidar da própria capacidade. Você
é bom no que faz. E é isso que lhe incomoda.
Como tudo no mundo, a qualidade define-se pela ausência dela. Só
percebemos o mundo pelo contraste. Ser habilidoso numa luta significa
que outras pessoas não são tão habilidosas como você.
Isto é, numa escala que vai de 0 a 10, você estaria, digamos,
num nível 7 ou 8, muito acima das pessoas comuns, que não
praticam qualquer arte marcial. E é exatamente isso que lhe incomoda.
Você nunca pensou em praticar uma arte marcial com o objetivo de
ser melhor do que outras pessoas. Pensava, sim, em ampliar seus próprios
limites, tornar-se melhor do que você sempre foi, aprimorar-se física
e espiritualmente -- porque você nunca esqueceu que as artes marciais
são um caminho para a vida, e a que você escolheu para si
não foge à regra. Não passou pela sua cabeça
a possibilidade de competir, porque a competição preserva
o ciclo de vitória e derrota que degenera o mundo desde que a humanidade
existe. Aliás, você não vê muita humanidade
na competição: de um lado o campeão colhe os louros
da vitória, de outro o derrotado amarga o próprio fracasso.
A certeza disso surgiu nos treinos: quando você era iniciante, um
lutador mais experiente agachou-se para ajudá-lo e demonstrou a
maneira correta de executar algumas técnicas. Simplesmente não
havia por que ele ostentar a força e a experiência que possuía.
O que você precisava não era ser derrotado, mas ensinado.
E assim foi.
De outro modo, você poderia ter saído daquele dojo como um
fracassado. Frustrado com a derrota, alimentaria um espírito de
vingança, que, se não atingisse aquele que o derrotou, certamente
seria dirigido para as pessoas ao seu redor. Você teria se tornado
um sociopata ou poderia ter se enveredado por caminhos errados, desenvolvendo
vícios e aprendendo artes que não são exatamente
dignas de receber este nome -- pois há muito de bondade, dignidade
e honra em todas as artes. Acumular conhecimento errado, indigno ou desonroso:
assim nasce a maldade numa pessoa.
Mas não foi isso que lhe aconteceu. Aquele lutador era muito habilidoso,
derrubou-o quando você menos esperava. Mas, diante da sua derrota,
ele veio até você e mostrou seus próprios erros, ensinou-lhe
as técnicas corretas e, mais, disse que um dia havia cometido os
mesmos erros e havia se deparado com alguém que lhe ensinou a arte
na qual se tornou mestre.
O aikido é uma das poucas artes que têm como base esse espírito
cooperativo. Não há competições nessa arte
nascida no Japão, há mais de 50 anos. Um dos grandes méritos
de Morihei Ueshiba, o fundador do aikido, foi ter abandonado o lado competitivo
do budô.
Uma das mais graves doenças modernas é o espírito
competitivo. O indivíduo inclinado a derrotar algo que lhe é
externo -- uma doença, uma pessoa, uma empresa -- só será
capaz disso se estiver disposto a sacrificar seu lado humano, pois a verdadeira
humanidade só permite a cooperação. Quando nos deparamos
com outro ser humano e o respeitamos como tal, vemos nele as mesmas virtudes
e angústias que nós mesmos temos ou que um dia tivemos.
Diante dessa identidade, não somos capazes de lhe causar mal. Ao
contrário, como ensinava Cristo, sentimos amor e compaixão
e tais sentimentos não permitem a competição, mas
apenas a cooperação, isto é, a vontade de estar em
ressonância com outro, de lhe ajudar ou de receber sua ajuda. Quando
competimos, afastamo-nos de nosso lado humano. Quando cooperamos, aproximamo-nos
de Deus, na medida em que Ele criou um mundo em que a dependência
e a cooperação fazem parte da natureza de todos os seres
humanos.
Conciliador e fraternal: assim é o aikido, a arte da cooperação.
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