O
Mestre e o Discípulo
Quem leu o livro sobre o grande samurai
Miyamoto Musashi pode lembrar de seus embates marciais com seu discípulo Jotaro, que era invariavelmente
derrotado. Porém Jotaro sempre retomava o embate e dizia que um
dia iria vencer o grande mestre. Musashi perquiria Jotaro se ele um dia
se tornaria melhor do que ele no uso da espada e por isso iria vencê-lo?
E Jotaro respondia dentro de sua simplicidade que como ambos estavam
envelhecendo e era era muito mais novo, chegaria o dia em que Musashi
estaria mais velho e ele -Jotaro - no auge de sua forma física
e então suas chances de vitória seriam potencialmente maiores.
Menciono essa passagem para falar sobre o grande mito Mestre x Discípulo.
Alguns entendem que o mestre nunca poderá ser superado pelo discípulo
e que esse – discípulo - nunca terá o pleno alcance de
seus emblemáticos conhecimentos.
Entendo que cabe ao discípulo, até como forma de reconhecimento
e gratidão, tentar sempre superar o mestre, instigando-o a estar atendo,
buscando seu crescimento e aperfeiçoamento marcial. Cabe ao mestre,
por sua vez, entender a ânsia por conhecimentos de seu discípulo,
entender, por vezes, seu pouco preparo, sua imaturidade.
Ser mestre significa, também, encorajar seu discípulo para que
ele cresça, se fortaleça e, porque não dizer, venha a
superá-lo em algum momento.
Quando o discípulo supera o mestre aí completa-se, verdadeiramente,
o ciclo. O mestre entende que ensinou tudo que podia e que o discípulo
acrescentou aos conhecimentos suas próprias virtudes e sua exclusiva
forma de se expressar marcialmente. É um momento mágico, um rito
de passagem que transformará o discípulo em mestre sem, contudo,
perder a referência ou mesmo o respeito ao seu mestre.
Escrevo sobre esse tema para expor meu pensamento, mas também para salientar
a forma generosa e corajosa como meu mestre Carlos Sensei encara sua responsabilidade
dentro do Aikido. Generosa porque não impede que seus alunos alcancem
maiores graus e responsabilidades e corajosa porque entende que o seu papel é ser
referência para quem está vindo e que o papel do verdadeiro discípulo é buscar
o conhecimento, absorvendo o que o mestre tem a mostrar.
Vemos, no caminho das artes marciais, “mestres” que impedem seus
alunos de crescer, de atingirem níveis e graduações por,
ao final, estarem temerosos de seus “postos” e “cargos”.
Parabenizo meu mestre Carlos Sensei por possuir o entendimento maior de que
deve exigir de seus alunos cada vez mais, dentro de suas possibilidades, ao
mesmo tempo em que concede espaço para que os mesmos cresçam
e atinjam suas metas, galgando seus degraus e encontrando seus próprios
espaços.
Zilmor Lima de Oliveira Filho
Professor do Kawai Shihan Dojo
3º grau fundação Aikikai do Japão
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